quinta-feira, 7 de abril de 2011

Primavera

A Primavera é uma festa de cor e alegria. Começa no dia 20 de Março e é o inicio de uma nova estação onde os flores desabrocham e o mundo parece que ganha mais cor e energia.
Na Primavera há mais vontade de passear com os amigos e familiares. É bom sair para a rua para ver nos jardins as flores a abrir e sentir o seu perfume, a sua vida e a sua cor.
A diferença da tristeza e da alegria é como a diferença do inverno e da primavera. Toda a gente a prefere, por ter uma alegria enorme, que nos enche a alma de cor e alegria, mesmo quando estamos tristes. Isto é um dos motivos que a Primavera nos dá para sorrir. Outro é ouvir o som da Natureza e perceber como é bela, ver as flores renascer e ter a sensação que nos está a acontecer o mesmo por dentro.
É fantástico tudo cheio de cor, de alegria e também ver o calor pairar no ar. Tudo tem música e harmonia. Há amor e paixão.
Os jardins estão todos floridos, as arvores e dão flores coloridas e alegres que com a brisa a banam suavemente e nos trazem perfume maravilhoso.
O clima na Primavera começa a aquecer e os animais que hibernam acordam para a vida, para festejar o milagre da natureza. As abelhas e as borboletas começam a aparecer no ar. As abelhas começam a apanhar o pólen das flores para fazer um mel muito doce.
Os agricultores lavram, semeiam, adubam, sacham e regam os campos para as suas plantações nascerem viçosas.
As nossas mães aproveitam o calor para abrirem as janelas e as portas para trás e fazer a nossa casa ganhar vida.
Nesta estação do ano as pessoas vestem roupas mais frescas, claras e leves, porque os dias são mais quentes e maiores, por isso as crianças também podem brincar durante mais tempo.
Depois de estarmos cheios de alegria a Primavera acaba e vem outra nova estação quente e cheia de emoção que se chama Verão.

Texto Coletivo 6ºE – E.B. 2/3 de Amares – 2010/2011

A Primavera

No dia 20 de Março
Começa a estação mais bonita do ano.
As cigarras e os passarinhos a cantar
E os raios de sol a iluminar,
Para uma nova estação celebrar.

Na Primavera
Roupas frescas vamos vestir,
Muitos passeios vamos fazer,
Brincadeiras sentir
E gargalhadas felizes ouvir.

O sol a brilhar
as borboletas com as suas asas a dançar
e as crianças felizes nos jardins
a jogar e a brincar.

A Primavera é uma festa
 De cor, fantasia e alegria
Onde se ganha mais energia.
É luz, calor e magia.

Poema coletivo – 6º E – E.B. 2/3 de Amares – 2010/2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Onda

Era uma linda manhã do ano de 2009. O sol brilhava e as ondas do mar estavam perfeitas para a prática de bodyboard.
A Matilde, uma rapariga de baixa estatura, olhos e cabelos castanhos, e o seu primo Gonçalo, um rapaz bonito de olhos azuis e cabelos louros, estavam ansiosos por irem para o mar. Naquele dia eles iam praticar uma manobra nova: o remoinho.
Fizeram o aquecimento à beira-mar e foram a correr para o oceano na esperança de apanharem uma boa onda. Mas a desilusão instalou-se, pois o que ao longe parecia perfeito tornou-se monótono.
De repente uma enorme, rápida e silenciosa onda cai sobre eles.
A Matilde e o Gonçalo andavam às voltas como numa montanha russa, era uma mistura de sargaço, pernas, braços a bracejar, areia e pranchas num esforço enorme na tentativa de sair daquele pesadelo.
Eis senão quando surge uma mão grande e musculada que os puxa para fora de água.
Refeitos do susto, quando abrem os olhos, apercebem-se que a água apenas lhes dá pelos joelhos.

Inês Costeira - 6ºF - EB 2/3 de Amares - 2010/2011

terça-feira, 15 de março de 2011

O Meu nascimento

Hoje de manhã saí muito cedo
Cedo da barriga da minha mãe
Mãe da minha vida
Vida que ela me deu
Deu com todo o amor eterno e desejado
Desejado o meu dia de nascer
Nascer com alegria
Alegria de me ver
Ver nascer
Nascer e crescer
Crescer e aprender
Aprender a comer e brincar
Brincar com os meus amigos
Amigos de infância
Infância de recordações
Recordações que nunca esqueci
Esqueci os momentos tristes
Tristes foram os trambolhões
Trambolhões alguns engraçados
Engraçados são os meus amigos
Amigos que estarão para sempre no meu coração.

Francisca Machado dos Santos  - 6º F - Escola E.B. 2/3 de Amares - 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Fada Oriana

Era uma vez uma fada chamada Oriana, que vivia numa grande floresta. Nessa floresta viviam um Moleiro, sua mulher e seus onze filhos, um Lenhador, sua mulher e o filho deles, uma Velhinha e um Poeta, mais os animais e as plantas.
Um dia, enquanto Oriana brincava, apareceu a Rainha das Fadas Boas para lhe dizer que ia ser a fada daquela floresta e, por isso, Oriana tinha de lhe prometer que ia tomar conta da floresta e de todos os homens e animais que lá viviam. Oriana ficou toda contente e prometeu à Rainha das Fadas Boas que iria tomar conta da floresta para sempre e jamais a abandonaria.
Oriana, como fada que era, tinha umas asas, para voar muito depressa, e uma varinha de condão, para transformar as coisas, para fazer magia. E a partir do dia da sua promessa, Oriana passou a ter uma rotina diária, que começava logo de manhã bem cedo: primeiro ia a casa do Moleiro preparar o pequeno-almoço para todos e arrumar a casa, depois ia casa do Lenhador, que era muito pobre, e levava consigo três pedrinhas brancas, que transformava, com a sua varinha de condão, em coisas que eram necessárias à família. Ajudava a Velhinha a chegar à cidade, porque ela via muito mal e podia cair num buraco que havia na estrada. Esse buraco chamava-se abismo. Ajudava os animais e as plantas sempre que precisavam dela. E à noite ia fazer companhia ao seu amigo Poeta. E todos os dias repetia as mesmas tarefas ajudando e protegendo todos aqueles que precisavam.
Um dia quando passeava junto a um pequenino rio que havia na floresta, ouviu alguém chamar por ela. Era um peixinho que estava deitado na areia, quase a morrer por falta de água, e lhe pediu para o colocar novamente na água do rio. Ao colocá-lo, Oriana viu o seu reflexo na água e ficou muito contente, porque viu que era muito bonita. E perguntou ao peixe se ele a achava também muito bonita. O peixinho respondeu-lhe que era a pessoa mais bonita que algum dia tinha visto. Ficou tão contente ao ouvir isso que Oriana acabou por passar todo o dia junto ao rio a ver o seu reflexo na água.
Ao anoitecer Oriana foi visitar o seu amigo Poeta, que morava numa torre. Todos os dias ao anoitecer Oriana visitava-o. E ficavam juntos a conversar até ouvirem as doze badaladas do sino de uma igreja, que ficava ali perto.
Dia após dia a Fada Oriana cumpria a sua rotina, mas desde que viu a sua imagem no rio passou a ir mais vezes para junto dele ver o seu reflexo na água e conversar com o peixinho, para o ouvir dizer que ela era muito bonita.
Num certo dia o peixe disse-lhe que ela podia ficar ainda mais bonita, se ela se enfeitasse com coroas de flores e colares de pérolas. E Oriana começou a passar ainda mais tempo junto do rio e menos tempo a fazer as suas tarefas. Como no rio não havia pérolas para ela fazer colares, o peixe do rio disse-lhe para ir ao mar pedir a um peixe que lhe arranjasse as pérolas. E assim fez. Oriana foi até ao mar e pediu ao peixe Salomão que lhe trouxesse muitas pérolas. Mas as pérolas estavam muito longe e peixe Salomão disse-lhe para esperar sentada numa rocha junto ao mar. Ali passou sete dias e sete noites, sem ir à floresta e sem cumprir a sua promessa, de tomar conta todos os dias dos homens, animais e plantas que viviam na floresta.
Quando o peixe Salomão chegou com as pérolas, Oriana foi muito depressa para a floresta, mas quando chegou já lá não morava ninguém. Os homens foram para a cidade e os animais para o monte.
De repente apareceu a Rainha das Fadas Boas, que estava muito chateada porque ela não cumpriu a sua promessa. E para castigá-la a Rainha das Fadas Boas retirou as asas e a varinha de condão a Oriana. Agora Oriana já não era uma fada, porque tinha abandonado os homens e os animais que viviam na floresta e estes fugiram. Oriana ficou muito triste por ter acreditado no peixe do rio e por ter abandonado a floresta.
Agora, para voltar a ser uma fada, Oriana tinha de fazer voltar para a floresta todos os homens e animais que lá moravam. Sem esperar mais tempo, partiu para a cidade, que era muito, muito grande, à procura do Moleiro, do Lenhador e do Poeta. Perguntou a toda a gente que encontrava se sabiam onde eles moravam. Mas ninguém sabia. Até que um gato, que a ouviu perguntar, disse-lhe que sabia onde moravam as pessoas que ela procurava. Oriana foi com o gato, pelas ruas da cidade, até às casas dessas pessoas, mas as pessoas não acreditaram nela, porque ela já não era uma fada, não tinha asas, nem varinha de condão. O Moleiro disse-lhe que só ia outra vez para a floresta se ela encontrasse o seu filho que perdera. A mulher do Lenhador disse que só voltavam para a floresta se ela tirasse o marido da prisão, que estava preso por ter roubado dois cobertores para aquecer o filho, que morria de frio e eles não tinham dinheiro. E o Poeta só voltava para a floresta se Oriana voltasse a encantar a noite como fazia antigamente.
Muito triste, Oriana saiu da cidade e foi para o monte à procura dos animais. Quando encontrou os animais, reparou que com eles estava o filho do Moleiro que se tinha perdido e Oriana pediu-lhes que lhe entregassem o rapaz para ela entregar aos seus pais. Mas os animais não acreditavam nela, porque ela já não era uma fada, nem se quer tinha asas, nem varinha de condão. E não lhe deram o rapaz. Muito desanimada e triste por não conseguir levar o filho do Moleiro aos seus pais, Oriana resolve, então, voltar para a floresta.
A caminho da floresta surge repentinamente, mesmo à sua frente, uma fada muito bela, que lhe promete dar novas asas e nova varinha de condão, mas para isso tinha de lhe prometer uma coisa. Oriana fica cheia de felicidade por poder voltar a ser uma fada e pergunta-lhe o que é que tinha de fazer. Então a outra fada, que era muito bela, disse-lhe as coisas que ela tinha de fazer e eram tudo coisas muito más, porque essa fada que apareceu a Oriana era a Rainha das Fadas Más. Oriana, cheia de raiva, virou-se para ela e, de imediato, respondeu-lhe que não fazia o que ela lhe pedira e que preferia nunca mais ser uma fada, do que ter que fazer coisas más. E sem hesitar foi-se embora.
Oriana decidiu então ir também viver para a cidade, porque era lá que estavam as pessoas e era lá que as podia ajudar. Quando ia para a cidade viu ao longe a Velhinha, que quase já não via e caminhava toda curvada, amarrada a um pau. E a Velhinha estava muito perto do buraco que havia no caminho e que se chamava abismo. E Oriana estava ainda muito longe dela. Oriana correu, correu muito depressa para guiar a Velhinha. Mas ao chegar perto dela, a Velhinha deu mais um passo e caiu no buraco, que era muito fundo e muito escuro. Oriana nem pensou, nem se lembrou que já não tinha asas e saltou para o buraco para salvar a Velhinha. E as duas agarradas uma à outra caíam, caíam nesse buraco que se chama abismo e era muito fundo. Mas de repente, no escuro do abismo surge uma luz muito brilhante. Era a Rainha das Fadas Boas! E com a sua varinha de condão toca nos ombros de Oriana e dá-lhe novamente as suas asas de fada e a sua varinha de condão. E assim Oriana conseguiu salvar a Velhinha.
Muito contente por ter voltado a ser a Fada Oriana, voou rapidamente para o monte a fim de encontrar os animais e o filho do Moleiro. Pegou no rapaz e voou ainda mais rapidamente para a cidade para o entregar a seus pais, que ficaram muito contentes e decidiram logo voltar para a floresta. De imediato foi até à prisão e com a sua varinha de condão soltou o Lenhador, que logo decidiu voltar novamente para a floresta. Já estava a ficar noite quando Oriana encontrou o Poeta num café da cidade e o levou novamente para a sua torre que ficava na floresta. Os animais também voltaram todos para a floresta. E Oriana prometeu novamente que de agora em diante jamais os abandonaria. E o Poeta pediu à Fada Oriana, como costumava pedir antigamente: - Encanta a noite, Oriana!
E a Fada Oriana com a sua varinha de condão encantou a noite como dantes.


(Versão da Fada Oriana de Sophia de Mello Breyner Andresen – David Carpinteiro)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

AFINAL

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. 
  Sentir tudo de todas as maneiras. 
  Sentir tudo excessivamente, 
  Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas 
  E toda a realidade é um excesso, uma violência, 
  Uma alucinação extraordinariamente nítida 
  Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, 
  O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas 
  Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. 
 
  Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, 
  Quanto mais personalidade eu tiver, 
  Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, 
  Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, 
  Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, 
  Estiver, sentir, viver, for, 
  Mais possuirei a existência total do universo, 
  Mais completo serei pelo espaço inteiro fora. 
  Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for, 
  Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo, 
  E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco. 
 
  Cada alma é uma escada para Deus, 
  Cada alma é um corredor-Universo para Deus, 
  Cada alma é um rio correndo por margens de Externo 
  Para Deus e em Deus com um sussurro soturno. 
 
  Sursum corda!  Erguei as almas!  Toda a Matéria é Espírito, 
 
  Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos 
  Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho 
  E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo! 
  Sursum corda!  Na noite acordo, o silêncio é grande, 
  As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam 
 
  Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos 
  Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra. 
  Sursum corda!  Acordo na noite e sinto-me diverso. 
  Todo o Mundo com a sua forma visível do costume 
  Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso, 
 
  Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça. 
 
  Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço 
  Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva! 
  Mãe verde e florida todos os anos recente, 
  Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal, 
  Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis 
  Num rito anterior a todas as significações, 
  Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales! 
  Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões, 
  Grande voz acordando em cataratas e mares, 
  Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança, 
  Em cio de vegetação e florescência rompendo 
  Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso 
  A tua própria vontade transtornadora e eterna! 
  Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados, 
  Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones, 
  Mãe caprichosa que faz vegetar e secar, 
  Que perturba as próprias estações e confunde 
  Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos! 
 
  Sursum corda!  Reparo para ti e todo eu sou um hino! 
  Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima 
  Volteia serpenteando, ficando como um anel 
  Nevoento, de sensações reminescidas e vagas, 
  Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso. 
  Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente 
  Meu coração a ti aberto! 
  Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático, 
  Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos, 
  Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre, 
 
  Sou um monte confuso de forças cheias de infinito 
  Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço, 
  A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une 
  E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim 
  Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo, 
  Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira 
  Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas, 
  Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos. 
 
  Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo. 
  Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão, 
  No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo 
  Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos 
  Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais. 
 
  Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima, 
  Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo 
  De chamas explosivas buscando Deus e queimando 
  A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica, 
  A minha inteligência limitadora e gelada. 
 
  Sou uma grande máquina movida por grandes correias 
  De que só vejo a parte que pega nos meus tambores, 
  O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis, 
  E nunca parece chegar ao tambor donde parte ... 
 
  Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito 
  Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si, 
  Cruzando-se em todas as direções com outros volantes, 
  Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço 
  Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus. 
 
  Dentro de mim estão presos e atados ao chao 
  Todos os movimentos que compõem o universo, 
  A fúria minuciosa e dos átomos, 
  A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, 
  A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam, 
 
  A chuva com pedras atiradas de catapultas 
  De enormes exércitos de anões escondidos no céu. 
 
  Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio 
  De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma. 
  Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode, 
  Freme, treme, espuma, venta, viola, explode, 
  Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge, 
  Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida, 
  Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes, 
  Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos, 
  Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!


Álvaro de Campos

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ALMA PENADA

         Márcia regressara há alguns meses atrás do estrangeiro e vivia, agora, com os seus pais, numa pequena aldeia do concelho de Amares.
         A casa onde moravam era uma casa já com alguns anos e nela tinha morado outra família anteriormente.
         Quando chegaram do estrangeiro, trataram logo de a mobilar e lhe dar o conforto de que precisavam.
         Na sala de jantar dessa casa havia um pequeno e antigo relógio de cuco, que a família decidiu manter, porque foi o único objecto da casa que encantou toda a gente.
         Dia após dia a vida daquela família entrava numa nova rotina, depois de tantos anos passados fora do país.         
         Márcia frequentava agora a Escola E. B. 2 / 3 de Amares. E nem imaginam em que turma estava!? Pois claro, no 5º C. A turma dos nossos conhecidos amigos de outras aventuras.
         As aulas tinham começado há já algum tempo e, por vezes, Márcia surgia com um ar cansado, diria até intrigante!
         Mas toda a gente pensava que era por ainda estar a habituar-se aos novos amigos, à nova escola e aos novos professores.
         E assim foram passando os dias, uns atrás dos outros, sempre marcados e controlados pelos donos do tempo: os relógios.
         Certo dia, estava Márcia na aula de Área de Projecto, com a professora Clara Ferreira e o professor David Carpinteiro, e o seu semblante escondia algo fora do normal.
         Até que a dada altura, enquanto o André, a Paula e o Américo falavam da história da Maria Gancha, Márcia sentiu que era o momento de falar do que a andava a atormentar.
         A turma inteira fez silêncio como que adivinhando o que aí vinha.
         Então Márcia, num ímpeto diz:
         - Em minha casa anda uma alma penada!
         - Aaaaaahhhh! – exclamaram todos a uma só vez.
         - Vá! Não digas asneiras! – retorquiu a professora Clara.
         Mas Márcia, muito seriamente, acrescenta:
         - É verdade stôra! Quase todos os dias, quando estamos a jantar na sala, ouvimos um barulho estranho. Parece que está alguém a bater debaixo da mesa: toc…toc, toc…toc – concluiu Márcia.
         Tudo isto parecia muito surreal ao professor David que questionou se não seriam estalidos da madeira.
         E a conversa continuou, com toda a turma a adiantar terríveis palpites.
         No seguimento da conversa, Márcia esclareceu que o senhor que tinha morado naquela casa, antes da sua família, tinha lá morrido e que agora era o seu fantasma que andava lá em casa a incomodar toda a gente.
         Mal ouviram falar em fantasma, Leonor e Mariana soltaram um enorme grito, que até a Dona Bernarda se assustou.
         E os dias foram passando… passando…
         E a história da Márcia não saía da cabeça de ninguém!
         Será que já estavam todos possuídos pela alma penada que habitava a casa da Márcia?
         - Toc…toc, toc…toc!
         E Márcia continuou esclarecendo os colegas do que realmente acontecia em sua casa.
         Todas as hipóteses já tinham sido postas e, por isso, era convicção da família que todo aquele assombramento se devia à alma penada do falecido, que tinha lá residido.
         Provavelmente tinha saudades da sua antiga morada.
A família da Márcia já tinha até ponderado vender aquela casa e ir morar para outra, mas gostavam tanto dela, que sentiam pena ter que a abandonar.
         Decidiram então tirar todas as dúvidas e chamaram os técnicos de construção civil para analisarem se não havia qualquer problema na construção da casa que provocasse tão estranho barulho, que ouviam todos os dias:
         - Toc…toc, toc…toc.
         Os técnicos concluíram que não havia qualquer problema estrutural com o edifício.
         E o que fazia agora a família da Márcia?!
         Não desistiram e chamaram então um padre para lhes abençoar a casa, na esperança de terem sossego. E assim foi. O padre da aldeia passou por lá e abençoou a habitação. Mas…
         Nada! Rigorosamente nada!
         Todos os dias o mesmo som:
         - Toc… toc, toc… toc.
         Cada vez mais o desespero tomava conta daquela família.
         Cansados de tudo aquilo tomaram a decisão de se irem embora, por causa daquele:
         - Toc…toc, toc…toc.
         Mas mesmo assim insistiram, ainda, em contactar um cientista, um mágico, um sábio …
         E todos lá foram presenciar ao tão assustador:
         - Toc… toc, toc… toc.
         E nada concluíram! Ninguém sabia de onde vinha tão estranho barulho. E todos estes homens da ciência que não acreditam em nada do paranormal, começavam a acreditar que naquela casa havia uma alma do outro mundo.
         Perante tais sabedoras conclusões, os donos da moradia resolveram, por fim, contratar um bruxo para lhes resolver o problema. E assim foi.
         O bruxo foi lá a casa e mal entrou, começou a sentir as forças do outro mundo. E de imediato diz:
         - Nesta casa mora uma alma do outro mundo e vem cá, porque tem fome e precisa de comer!
         Rapidamente o bruxo procedeu às suas rezinhas, juntamente com os seus rituais exorcistas para enviar a alma penada para outro lado. Espalhou uns esbranquiçados pozinhos pela casa e aconselhou a família a deixar um prato de comida em cima da mesa para que a alma do outro mundo matasse a fome. E garantiu-lhes que no prazo de um mês a casa ficaria em sossego para sempre, livre de qualquer espírito.
         Perante tais evidentes conclusões, a família da Márcia dispôs-se então a permanecer lá mais algum tempo. E cumpriam religiosa e escrupulosamente tudo o que o bruxo lhes dissera.
         Mas todos os dias o mesmo barulho:
         - Toc…toc, toc… toc.
         Até que passou um mês e ansiosa a família da Márcia esperava ter enfim o sossego que merecia.
         Mas…
         Afinal nada mudou naquela casa. Só pratos de comida que ninguém comeu e:
         - Toc… toc, toc… toc.
         Enquanto a Márcia contava estas histórias, o Sandro perguntou:
         -E se nós fôssemos a tua casa ver o que se passa?
         - Não! – respondeu de imediato a Diana toda assustada.
         E como já sabem foi discussão, da boa, entre todos, uns a favor, outros contra, uns cheios de bazófia, outros a roer as unhas de medo.
         Mas chegaram a um veredicto:
         - Vamos à casa da Márcia tirar a alma penada de lá – informou a Cristina.
         Aprazaram o dia e organizaram ao pormenor a visita, como se de uma verdadeira expedição ao outro mundo se tratasse.
         E no dia combinado lá estavam eles preparados para a grande aventura. E seguiram até à casa da sua colega Márcia.
         Quando chegaram à morada da Márcia, a Emília tremia que nem uma vara verde, inundada de medo. E o João já não queria continuar aquela aventura.
         - Eu fico cá fora a vigiar – dizia ele.
         Mas não. Ninguém podia ficar à porta da habitação. Todos tinham de entrar, como ficou decidido.
         A Márcia abriu calmamente a porta e todos, cheios de medo, entraram.
         Percorreram o edifício todo e nada de estranho aconteceu. Até que de repente se ouve:
         - Toc… toc, toc… toc.
         Foi uma gritaria geral! O Rui desata a fugir e tranca-se numa casa de banho. O Leonel atira-se, literalmente, para debaixo de uma mesa e fica lá a tremer. E a outra Márcia, desorientada, amarra-se à Cristina e ficam ali as duas, imóveis.
         E o Sílvio? Onde estava o Sílvio?
         O Sílvio estava especado no meio da sala a olhar para o relógio de cuco, sem se ter apercebido de nada.
         Instantaneamente todos se recompuseram e o Rui saiu da casa de banho. Beberam um copo de água e conversavam agora sobre o que afinal havia na casa da Márcia. Ninguém estava de acordo com ninguém, obviamente! E até já falavam de outras coisas.
         E o Sílvio continuava a admirar o relógio de cuco.
         - Sabem – diz ele – o meu avô também tem um relógio destes. Podemos ficar aqui mais um pouco para ver o cuco a dar horas?
         - Ok! – responderam todos.
         - Nós também queremos ver o cuco – concluíram.
         O assunto dos barulhos estranhos já estava ultrapassado, esquecido. Era algo que não podiam resolver. E agora só faziam tempo para verem o cuco dar horas.
         Conversa puxa conversa e lá estava o 5º C todo animado na casa da Márcia.
         Cerca de uma hora depois e enquanto conversavam distraída e alegremente, ouve-se inesperadamente:
         - Toc… toc, toc… toc.
         Instantaneamente ficaram todos mudos e petrificados no meio da sala.
         E mais uma vez o Sílvio, que não se apercebera de nada, interrompe o gélido silêncio:
         - Já são quatro horas e o cuco não saiu.
         - Pois não – disse a Márcia da casa – nem vai sair, porque o cuco está avariado. Só dá para ver as horas – concluiu.
         O Sílvio, como se achava um entendido em relógios de cuco, pegou numa cadeira e pôs-se junto do dito, para ver o que se passava com o cuco.
         O tempo foi passando e já eram quase cinco da tarde, quando o Sílvio terminou a sua perita análise dizendo que devia haver algum problema com as portinhas do relógio por onde devia sair o cuco. Deviam estar encravadas.
         E chegaram as cinco da tarde!
         E novamente uma gritaria infernal, por causa do já famoso:
         - Toc… toc, toc…toc.
         E no meio daquele histerismo todo, remata o Sílvio, abstraído de tudo à sua volta:
         - Afinal o barulho que se ouve é do cuco a querer sair do relógio.
         E todos ficaram pasmados, olhando para o Sílvio, com a sua brilhante conclusão.
        Afinal na casa da Márcia não havia nenhuma alma do outro mundo, apenas a alma penada de um cuco que dentro do seu relógio batia com o bico na porta de madeira, de hora a hora:
         - Toc… toc, toc… toc.
         E assim se desvendou o mistério dos estranhos barulhos que possuíam a casa da Márcia.


David Carpinteiro e alunos do 5º C da Escola E.B. 2/3 de Amares - Ano Lectivo 2009/2010